Cada vez mais pessoas abandonam suas profissões para se dedicar exclusivamente ao mercado de capitais e ganhar independência financeira.
Vale a pena?O economista paulistano Jorge Eduardo Aidar, de 45 anos, tinha tudo para construir uma
carreira internacional de muito
sucesso.
Com pós-graduação em fi nanças e marketing, hoje ele estaria na fase da contabilização de
bônus polpudos e outras formas de
remuneração variável que engordam os bolsos dos executivos.
Mas não foi esse o destino que o economista escolheu.
Ele optou por ser um
investidor profissional.
A migração de uma
carreira para outra não foi fácil.
Jorge começou a trabalhar quando ainda era estudante da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo, na petrolífera norte-americana Shell, na área de recursos humanos, depois foi para os departamentos comercial e de vendas e marketing.
Um ano depois foi para a Andersen Consulting (atual Accenture), especializada em gestão, fi nanças e produtos.
Dois anos depois ele era o único brasileiro a fazer parte de um plano para estruturar a expansão da multinacional Domino’s Pizza no mundo.
Morou um ano nos Estados Unidos e resolveu voltar ao Brasil.
Na sua primeira semana no país, formatou a área de franquia da Microsiga (atual Totvs).
Um ano e meio depois, migrou para o Banco Nacional (que depois foi comprado pelo Unibanco), no qual assumiu a área de nichos de mercado.
“Criei um núcleo de produtos fi nanceiros para as redes de
franquias e integrei a equipe que criou o Internet 30 Horas.
Fiquei lá por oito anos.”
O Itaú (que se fundiu com o Unibanco) o chamou para assumir a gerência sênior de produtos de meios de pagamentos eletrônicos e desenvolver essa área.
Depois de uma trajetória profi ssional brilhante e com uma passagem pela Interchange — empresa, na época, dividida entre os sócios Citibank, Unibanco, ABN Real e EDS —, Jorge começou a repensar sua vida.
Ele já tinha sido fi sgado pelo vírus do mercado fi nanceiro.
“Desde a época da faculdade eu comprava ações, mas era de forma muito amadora.
Hoje, vivo exclusivamente do mercado de capitais”, diz
HORA DA VIRADA
Em 2003, ele percebeu que já ganhava mais dinheiro com ações do que com sua profi ssão.
Foi então que resolveu mudar tudo.
Saiu do emprego, abriu uma consultoria e começou a comprar e vender ações 24 horas por dia.
“Fiz vários cursos gráfi cos e fundamentalistas para aprofundar o conhecimento.
Li muitos livros e mergulhei no assunto.
Hoje, vejo todos os mercados, inclusive o asiático.
Leio os jornais econômicos e posso dizer que estou realizado profi ssionalmente”, diz.
Jorge vive dos dividendos que recebe das ações e dos juros sobre o capital, e com isso ele consegue ganhar anualmente duas vezes mais do que recebia quando trabalhava em um banco, incluindo
bônus e outras rendas variáveis.
Com dedicação, ele conseguiu aumentar três vezes seu patrimônio inicial.
Mas, quando a crise fi nanceira chegou, a situação dele fi cou diferente.
“Perdi 50% do meu dinheiro, tive de apertar o cinto, mas acho que consigo recuperar o dinheiro no ano que vem”, diz ele.
Jorge faz parte de um contingente de pequenos
investidores que não param de crescer na bolsa de valores.
Hoje já somam 521 529 cadastrados.
Em 2003, eram 85 000.
“O mercado fi nanceiro tem se preparado cada vez mais para atender aos
investidores pessoa física e não é de se surpreender que a ocupação tenha crescido”, diz Robert Dannenberg, presidente da TradeNetwork, organizadora da Expo- Money, maior evento do país voltado à educação fi nanceira e investimentos.
Isso porque a profi ssão de
investidor começa a se impor como opção real entre as pessoas físicas.
“É preciso se preparar para entrar no mercado, e nada garante que você terá
sucesso na profi ssão.
Os riscos são muitos e é fácil desistir no meio do caminho”, diz Jorge.
Por ser uma opção de profi ssão relativamente nova, que possibilita várias formas de atuação, não há uma caracterização única e defi nitiva para esse profi ssional.
Tanto que o carioca Ricardo Orenstein decidiu se dedicar inteiramente ao mercado de capitais muito antes da febre que abarcou os brasileiros nos últimos dez anos.
“Comecei aos 16 anos na Cotibra Corretora, que era do presidente da bolsa de valores do Rio de Janeiro, Ênio Rodrigues”, diz.
Hoje, aos 44 anos, Ricardo conta que largou a formação em economia no último ano, na Universidade Cândido Mendes, foi morar nos Estados Unidos e ao voltar, após um ano, fez uma especialização no Ibmec em operações de open market.
Em 1986, aos 19 anos, Ricardo já comprava e vendia ações.
Foi no ano seguinte que o
investidor carioca deu um passo mais audacioso.
Abriu a TecnoInvest, que chegou a fazer análise técnica em renda
variável de 36 empresas, a maioria instituições fi nanceiras.
Mas, como nem tudo é perfeito, Ricardo viu seu sonho ruir na época do governo Collor (1990-1992), pois os recursos da empresa foram confi scados (assim como os de milhares de brasileiros) em 199o, o que o deixou sem capital de giro.
“Tivemos que fechar as portas.
Ele, então, resolveu abrir um outro negócio, dessa vez mais conservador: uma confecção de shorts e bermudas.
Mas, apesar de o negócio ter crescido bem até 1996, não oferecia retorno fi nanceiro satisfatório.
Não para quem estava habituado às possibilidades oferecidas na bolsa.
“Eu tenho perfi l de mercado fi nanceiro.
Gosto de correr riscos”, diz.
Atualmente, Ricardo é sócio da Horto Consultoria Financeira, especializada em alocação de recursos de terceiros, que administra 100 milhões de reais.
RISCO
É sempre bom lembrar que a relação de risco que o
investidor corre hoje em dia é diferente de quando Ricardo começou.
No início da década de 80, o volume fi nanceiro negociado na bolsa era de 100 milhões de reais por dia.
Hoje é de 5 bilhões de reais diários.
Antigamente, se você perdia dinheiro na bolsa, podia correr para a segurança da renda fi xa e seus juros altíssimos.
Hoje, a taxa Selic está em 8,75% ao ano.
Em meados de 2007, quando o Ibovespa bateu nos 66 000 pontos, ele foi o primeiro a prever que a bolsa derreteria para 28 000 pontos (chegou a 23 000 no auge da crise).
Falava também que os papéis da Petrobras, negociados a 84 reais, cairiam para 18 reais (ocorreu no dia 21 de maio de 2008).
O executivo salienta também que, numa análise fria, é possível ver que a ação da Petrobras vale hoje (33,40 reais, em 16 de setembro de 2009) o mesmo que em 17 de outubro de 2007 (33,40 reais) — isso depois de muita oscilação.
“Para quem só carregou o papel e não aproveitou as altas e baixas para vender ou comprar, não ganhou nada”, diz Ricardo.
Essa talvez seja a melhor dica para o novo
investidor.
“Só esquentar o papel pode não lhe trazer ganho algum, dependendo do período de resgate.
É preciso operar ou delegar para quem conhece o mercado.” Como previu a crise com antecedência, Ricardo não chegou a perder dinheiro.
Fonte:voce s/a